Portugal não está em melhores condições para enfrentar o futuro e mesmo que não houvesse crise financeira, o Governo continuaria sem conseguir alcançar os seus próprios objectivos, considera o Compromisso Portugal.
No avaliação que fazem dos últimos quatro anos de governação socialista, os três lideres do projecto (António Carrapatoso, Joaquim Goês e Rui Ramos) "chumbam" o Governo de José Sócrates, considerando que este, "apesar do seu ímpeto reformista inicial", não terá feito "muito melhor" que os antecessores.
"É improvável que este Governo tenha deixado na História do país uma marca à altura da situação preocupante em que vivemos. Dificilmente se poderá dizer que o país está agora em melhores condições de vencer os desafios futuros do que estava no início de 2005", consideram.
Na última avaliação à acção governativa deste projecto, realizado com base nas próprias metas anunciadas pelo Governo, o Compromisso Portugal sublinha que "esses objectivos não teriam sido atingidos mesmo sem a crise internacional do último trimestre [de 2008] (...) tendo em conta a evolução e tendência até 2008".
Os responsáveis destacam que "o aspecto mais inquietante da actuação deste Governo" é o alargamento da actuação do Estado "com um estilo de intervenção demasiado intrometido e musculado", que terá levado a um agravamento da "promiscuidade entre política e negócios".
"O Governo deixou a impressão de que nem sempre terá sabido resistir à tentação de tirar partido dos activos do Estado (empresas em que participa) para intervir na área empresarial. (...) Com a sua indisponibilidade em separar o Estado dos negócios, o Governo manteve a tradicional promiscuidade entre agentes políticos e agentes económicos", afirmam.
Os responsáveis vão mais longe, considerando mesmo que "uma grande parte dos empresários e gestores de grandes empresas encontram-se condicionados pelo poder político" levando a que estes, por um lado, tentem "aproximar-se do poder para recolher benefícios e protecção" e, por outro lado, sintam a "necessidade de ter o seu aval para qualquer decisão mais significativa".
Para o Compromisso Portugal, o Governo "falhou" ainda no relançamento sustentado e estrutural da economia e da sua competitividade (independentemente da crise internacional), na reforma e modernização da administração pública, na reforma da justiça, na melhoria da qualidade ambiental, sustentabilidade e coesão territorial.
Em declarações à Lusa, Rui Ramos, professor universitário e um dos três responsáveis do Compromisso Portugal, considerou que "o Governo falhou ao não conseguir explicar e descrever qual a visão que tinha para o país" e "falhou uma segunda vez ao confundir em termos das reformas, a profundidade e o impacto das reformas, com o conflito que as reformas iam suscitar".
"A partir de determinada altura o conflito pareceu que era a credencial principal do Governo para dizer que era reformista. (...) O conflito alimentou perversamente uma auto-imagem do governo como um governo reformista que poderia talvez ter sido alcançado de uma outra maneira e com efeitos muito maiores", afirmou Rui Ramos.
O responsável do Compromisso Portugal, que divulgou hoje uma avaliação dos últimos quatros anos de governação socialista, disse ainda que "no fim de 2008 o Governo continuou a subestimar os efeitos em Portugal da crise financeira e sobretudo a dimensão económica que essa crise iria adquirir". "O que a crise internacional veio fazer foi revelar as nossas fragilidades domésticas. Trouxe dificuldades de fora, mas essas tornaram-se maiores em Portugal por causa das dificuldades internas que já temos e foi ao subestimar essas dificuldades internas que o Governo também subestimou os efeitos que em Portugal iria ter a crise económica internacional", explicou.
Rui Ramos disse que o Compromisso Portugal concluiu "por um lado, [que] é verdade que este Governo, mais até do que governos anteriores, fez um esforço para cumprir o seu programa e teve até vontade para mudar muitas coisas, mas que a sua obra ficou aquém do que prometera e do que o país precisava".
in Público online
quarta-feira, 22 de julho de 2009
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